
December 2, 2025
By Thiago Favero, EVCF Fellow
“O mercado de VC é um jogo infinito — de relações, reputação e construção conjunta. A melhor forma de crescer é estar entre pessoas abertas, que enfrentam desafios parecidos e se ajudam a longo prazo.”
Conversamos com Fernando Lucarevschi Baptista, gerente de operações na BDev Ventures e um dos novos fellows do Emerging VC Fellows. Formado em jornalismo, Fernando construiu uma trajetória pouco convencional até chegar ao venture capital. Ele compartilhou sua jornada, impressões sobre o novo formato do Emerging e o que mais tem aprendido nessa nova fase.
Thiago Favero: Fernando, você tem uma trajetória um pouco diferente da maioria dos fellows do Emerging. Conta um pouco sobre você, sua caminhada até o VC e o que faz hoje na BDev Ventures.
Fernando Lucarevschi Baptista: Eu sou de Taubaté, no interior de São Paulo, e vim pra capital pra estudar jornalismo. Sempre fui apaixonado por escrever, entrevistar pessoas e tentar traduzir problemas em histórias concretas — entender o que move alguém e conseguir transformar isso em algo que faça sentido pra quem lê. Era o que mais me fascinava.
Mas, com o tempo, fui conhecendo melhor o mercado e percebi que o jornalismo, na prática, tinha limitações que me frustravam. Vi muita gente boa tendo dificuldade de crescer, de viver da profissão, e acabei me afastando. Caí em VC quase por acidente. Eu trabalhava em consultoria quando recebi um convite para entrar na BDev Ventures, um fundo americano onde estou até hoje.
Entrei em 2022, primeiro com foco em value creation, desenvolvendo produtos e ferramentas internas que ajudassem as startups do portfólio. Com o tempo, fui migrando para um papel mais operacional, entendendo o negócio como um todo. Hoje, como gerente de operações, cuido de tudo que é “backstage”: processos, dados, ferramentas, relacionamento com as startups e eficiência interna. Quero eliminar o trabalho braçal pra que o time use o tempo de forma inteligente — mais tempo construindo rede, conhecendo founders e criando oportunidades reais
Thiago: E como tem sido sua experiência no Emerging até agora? Você entrou já nesse novo formato, com mentoria e eventos presenciais. Quais são suas impressões?
Fernando: Entrei em outubro, já com o programa reformulado, e fiquei impressionado. Gosto de ter uma estrutura clara, e o Emerging entrega isso — uma agenda consistente, mentoria bem pensada e eventos que realmente geram troca.
A mentoria, em especial, tem sido transformadora. Meu mentor é o Edson Rigonatti, da Astella, que é o melhor mentor que eu poderia ter. Com menos de um minuto de conversa ele já começou a me dar dicas sobre narrativas, o mercado de VC e a forma como me colocar, e quebrou tudo que eu tinha pensado para o encontro, de uma forma positiva. Ele combina profundidade técnica com sensibilidade prática, o que torna cada encontro muito rico. Fico muito feliz do Emerging me proporcionar esse tipo de encontro.
Mais do que isso, o Emerging cria um senso de comunidade genuína. VC é um mercado extremamente relacional, e o programa te coloca em contato com pessoas abertas, dispostas a compartilhar. É uma forma de crescer junto, de se sentir parte de algo maior.
Thiago: E sobre o evento com o Shu, o que mais te marcou na fala dele?
Fernando Lucarevschi Baptista: O Shu tem uma forma de pensar e se comunicar muito única. Ele fala do poder dos “outsiders” em promover a inovação, e isso me marcou bastante. É muito interessante perceber que vir de fora das grandes bolhas — como São Paulo ou São Francisco — pode te dar um olhar diferente sobre o mundo. Ele mostra que dá pra criar valor a partir da periferia do ecossistema, e não só do centro.
Achei incrível como ele enxerga o mercado latino com um olhar global. Comentou sobre como várias regiões do mundo estão passando por um certo desânimo, enquanto o Brasil segue florescendo. Aqui, o fluxo de ideias, capital e founders ativos é impressionante. Essa resiliência mostra o quanto o ecossistema amadureceu.
Além disso, ver a perspectiva de um não latino sobre o Brasil é fascinante. Ele reconhece que nosso mercado tem oportunidades muito localizadas, mas também aponta o desafio de transformar essas cenas em oportunidades realmente globais. E é aí que está o ponto: entender o que é uma “jabuticaba” e o que é uma solução que pode competir lá fora.
Thiago Favero: E você, que trabalha num fundo americano, concorda com essa visão sobre o Brasil e a América Latina?
Fernando Lucarevschi Baptista: Concordo bastante. O Brasil é um mercado gigantesco, e isso é uma bênção e um desafio. Muitos founders olham pra dentro e pensam: “esse mercado é tão grande que eu consigo viver só dele”. E, em muitos casos, estão certos. Há startups excelentes que prosperam sendo 100% locais.
Mas, do ponto de vista de um fundo global, é natural que a gente se empolgue mais com quem pensa além das fronteiras. Quando um founder cria uma solução aplicável em outros países da América Latina ou fora dela, o potencial de escala e impacto cresce muito. O que vejo, na prática, é que o desafio não é técnico — é de mentalidade. Internacionalizar dá trabalho, mas traz se é bem feito os resultados compensam demais.
No fim, não existe certo ou errado. Existem caminhos diferentes — e entender qual jogo você quer jogar é o que faz a diferença.
Thiago: Legal saber suas perspectivas. Para encerrar as perguntas convencionais, quais são suas expectativas como fellow dentro do Emerging?
Fernando: Minha expectativa é crescer junto com as pessoas que estão construindo o ecossistema. O VC é um jogo de longo prazo, de reputação e confiança. As conexões que a gente forma hoje são o que abrem portas no futuro.
Quero criar laços reais, de longo prazo, com gente que compartilha da mesma energia. É muito mais fácil se empolgar com uma ideia ou apoiar um founder com quem você já criou uma relação genuína. O Emerging me dá exatamente isso: um ambiente pra formar conexões verdadeiras, trocar e aprender de forma contínua.
Thiago: E fora do trabalho, quem é o Fernando?
Fernando: Eu tenho uma rotina simples. Gosto de estar fora de casa, correr, sair com cachorro, estar com amigos. Adoro esportes, praia e momentos descontraídos. Correr virou um hábito importante, pelo menos para equilibrar o dia a dia.
No fundo, sou movido por boas conversas. Gosto de ouvir histórias, conhecer gente diferente e aprender com cada troca.