July 14, 2025

Fellows Spotlight: Giovane Avila, Corporate Venture Capital Manager no Itaú

By Thiago Favero, EVCF Fellow

“A principal diferença está no viés estratégico do CVC. Enquanto o VC tradicional foca exclusivamente no retorno financeiro, o CVC busca equilíbrio entre retorno financeiro e sinergias estratégicas com a corporação. No caso do Itaú, por exemplo, avaliamos como uma startup pode se conectar ao banco, aprender com ele ou alavancá-lo. Isso limita nosso escopo, já que focamos em setores como fintech e áreas adjacentes, como cibersegurança, que são relevantes para o core do banco. Um VC puro, por outro lado, pode investir em qualquer indústria.”


Thiago Favero: Giovane conta um pouco sobre sua trajetória até chegar à posição que você ocupa hoje na Kinea. Como foi sua transição de M&A para Venture Capital?

Giovane Avila: Obrigado pelo convite, Thiago. Sou de Porto Alegre, onde o acesso ao mercado financeiro é mais limitado por estar fora do centro econômico do país. Comecei na faculdade de administração, com a ideia de empreender, mas não me adaptei. Mudei para engenharia civil, curso que concluí, mas também percebi que não era meu caminho. O ponto de virada foi meu intercâmbio no programa CC em Fronteiras, onde estudei um ano fora e cursei disciplinas de economia, finanças e relações internacionais, além de engenharia. Isso despertou meu interesse por mercado financeiro.

Quando voltei ao Brasil, com cinco semestres de engenharia, sabia que não queria atuar na área, mas o curso me abriu portas para mercado financeiro e consultoria. Participei de um processo seletivo para uma boutique de M&A em Porto Alegre, a Bateleur, onde comecei com uma equipe de cinco pessoas e saí quando já éramos cerca de 35. Foram três anos que formaram minha base em finanças, trabalhando com M&A e assessoria financeira, especialmente em projetos regionais no Sul. Em 2019/2020, decidi buscar oportunidades em São Paulo, ainda dividido entre mercado financeiro e consultoria. Por indicação de amigos, candidatei-me a uma vaga na Kinea, em outubro de 2020, sem saber muito sobre Venture Capital (VC). Precisei até pesquisar o que era uma empresa Series A para o processo seletivo! No fim, escolhi seguir no mercado financeiro por conta da minha bagagem e me apaixonei por VC, pelo dinamismo e pela proximidade com inovação e empreendedores.


Thiago Favero: Você começou sua carreira na Kinea, já com uma visão de Corporate Venture Capital (CVC). Quais são, na sua opinião, as principais diferenças e desafios entre o CVC e o VC tradicional?

Giovane Avila: A principal diferença está no viés estratégico do CVC. Enquanto o VC tradicional foca exclusivamente no retorno financeiro, o CVC busca equilíbrio entre retorno financeiro e sinergias estratégicas com a corporação. No caso do Itaú, por exemplo, avaliamos como uma startup pode se conectar ao banco, aprender com ele ou alavancá-lo. Isso limita nosso escopo, já que focamos em setores como fintech e áreas adjacentes, como cibersegurança, que são relevantes para o core do banco. Um VC puro, por outro lado, pode investir em qualquer indústria.

Essa especialização tem prós e contras. Por um lado, limitamos o volume de oportunidades; por outro, ganhamos profundidade em setores específicos, o que nos ajuda a identificar os melhores players. Um grande diferencial do CVC é a possibilidade de usar os times internos do banco como uma consultoria especializada. Por exemplo, ao avaliar uma startup de blockchain ou infraestrutura de fundos, temos acesso a especialistas do Itaú que trazem insights técnicos e de mercado, sem precisar de consultorias externas. Além disso, nossas investidas frequentemente fecham contratos comerciais ou parcerias com o banco, o que gera valor financeiro e feedback contínuo para o desenvolvimento de produtos e roadmaps.


Thiago Favero: Na ótica do empreendedor, como você avalia a experiência de ser investido por uma corporação como o Itaú? Quais são as vantagens e desafios?

Giovane Avila: Alguns empreendedores ainda têm receio de CVCs, achando que os processos são lentos ou que haverá exigências de exclusividade ou controle. Essa percepção, que pode ter sido válida no passado, está mudando com a evolução da indústria. Hoje, muitos fundadores veem o CVC como smart money, especialmente em setores regulados como fintech ou blockchain. Por exemplo, nossa investida LCK, que atua em tokenização, se beneficia enormemente de ter o Itaú no cap table, já que o banco participa de discussões regulatórias com Bacen e CVM, além de oferecer uma base para testar produtos.

O processo de avaliação no CVC é mais robusto, porque além do retorno financeiro, analisamos sinergias com o banco, o que pode ser mais demorado, mas internamente já aceleramos bastante em relação a anos anteriores. Tudo isso traz vantagens significativas: o peso da marca Itaú abre portas, dá confiança ao mercado, ajuda na navegação regulatória e oferece acesso a clientes e produtos para testes. Quando entrei na Kinea, havia mais resistência dos fundadores, mas hoje vejo mais entusiasmo, com empreendedores já pensando em sinergias com as unidades de negócio do banco, seja comercial, tecnológica ou regulatória, além do fato de ter o Itaú no Cap Table já traz uma força relevante para a empresa.


Thiago Favero: Alguns anos atrás, o CVC era um tema quente, com muitas empresas criando iniciativas de inovação. Recentemente, isso diminuiu, mas o Itaú foi na contramão, internalizando a Kinea e anunciando um fundo de R$ 500 milhões. Conta um pouco sobre esse movimento, sua participação e o que vocês buscam nessa nova fase.

Giovane Avila: O mercado de VC tem ciclos, e o momento atual, com taxas de juros mais altas, é menos atrativo para investimentos de risco. No entanto, nossa visão no Itaú é de longo prazo. Não focamos apenas no cenário dos próximos 6 ou 12 meses, mas em como o mercado financeiro estará em 5 ou 10 anos. Mesmo em momentos de correção, como o atual, sempre há oportunidades de inovação. Vemos com bons olhos a forma com que os empreendedores estão lidando com as crises, isso gera uma seleção ainda melhor de empresas As startups no Brasil agora crescem com mais sustentabilidade, diferente do boom de 2020/2021, quando havia excesso de capital e valuations inflados, o que favorecia uma falta de austeridade necessária para a eficiência das companhias.

Participar desse movimento na Kinea foi gratificante, especialmente por contar com a confiança do Itaú para uma visão de longo prazo. Nosso objetivo é ser o maior CVC do Brasil e um dos maiores do mundo, investindo continuamente, independentemente do cenário macro. Buscamos as melhores oportunidades e parcerias com empreendedores que impulsionem tanto o desenvolvimento das startups quanto o do banco. Momentos de mercado mais difíceis criam oportunidades, como encontrar fundadores mais experientes e calejados, o que é positivo para nosso modelo estratégico.


Thiago Favero: Para fechar, qual é o grande sonho do Giovane profissional e do Giovane pessoal? E como está sua vida fora do trabalho, algum hobby?

Giovane Avila: Profissionalmente, quero participar de projetos que transformem a indústria de VC no Brasil. Apesar de sermos um powerhouse em inovação, especialmente no mercado financeiro, o ecossistema brasileiro de startups ainda é pequeno comparado a mercados como os EUA. Meu sonho é olhar para trás daqui a 10, 15 ou 20 anos e ver empresas que conheci em estágios iniciais, como Seed ou Series A, tornarem-se líderes em seus segmentos, sabendo que contribuí para isso. Quero ajudar a profissionalizar e expandir o ecossistema brasileiro, com mais startups, fundos e capital alocado.

Pessoalmente, busco equilíbrio. Quero ter uma carreira de sucesso e ter orgulho do que construí, mas também tempo para família, amigos e esportes. Pratico jiu-jitsu há quatro anos, desde que me mudei para São Paulo, e recomendo muito. No mercado financeiro, é fácil cair no burnout se não houver equilíbrio. Atividades físicas, como jiu-jitsu, ajudam a manter a cabeça limpa, o foco e a motivação no trabalho. Fora isso, gosto de visitar minha família em Porto Alegre e manter um estilo de vida equilibrado na medida do possível.