
May 19, 2025
By Rafael Arakaki, EVCF Fellow
“A ideia de fazer um MBA surgiu a partir de algo que sempre esteve presente na minha trajetória: o poder das redes. Para mim, rede é sobre conexões — pessoas que se ajudam, trocam e se influenciam mutuamente ao longo do tempo. Foi por meio dessas redes que entrei na empresa júnior, fui parar na ACE, co-fundei o Emerging e criei a Exit in Public. Em todas essas experiências, a rede abriu portas, provocou decisões e me expôs a pessoas e ideias que transformaram meu caminho.
O MBA surgiu como uma nova rede a explorar. Longe de ser uma coisa necessária, mas a minha aposta é conhecer gente muito boa e romper esta bolha de conhecer pessoas que talvez em nenhum outro contexto eu conheceria na profundidade que imagino conhecer durante o programa.”
Conversamos com Luiz Fernando Silva Néto, cofundador do Emerging VC Fellows e criador da newsletter Exit in Public. Com experiência em fundos como ACE Startups e RX Ventures (CVC da Lojas Renner), Luiz compartilha sua trajetória, aprendizados e visão de futuro ao se preparar para iniciar seu MBA em Harvard.
Rafael: Para começar, conta um pouco da sua trajetória: o que te inspirou a entrar em VC e qual foi o ponto de virada que te fez acreditar que era a carreira certa para você?
Luiz: Sou de Brasília, estudei engenharia mecânica e venho de uma família de servidores públicos. Durante muito tempo achei que seguiria esse caminho. Mas tudo mudou quando entrei para o movimento empresa júnior — foram quatro dos cinco anos da faculdade envolvidos com isso. Ali tive meu primeiro contato com vendas, liderança, relacionamento e experiência com clientes. E me encantei com tudo aquilo.
Já no fim da graduação, queria seguir nessa direção, mas ainda não sabia exatamente o que isso significava. Por coincidência, conheci o time da ACE quando estavam abrindo uma operação em Brasília. Fiz um processo bem orgânico — basicamente pedi para trabalhar com eles — e acabei entrando. Na época eu nem sabia direito o que era VC. Mas logo me encantei pelas pessoas envolvidas, pela capacidade de transformação dos founders, e decidi que queria estar perto desse mundo e aprender tudo o que pudesse sobre ele.
Rafael: Se pudesse voltar para seu primeiro dia em VC, qual conselho daria pra si mesmo? E qual foi o feedback mais marcante que recebeu até hoje?
Luiz: Ser humilde intelectualmente. Lembrar que, mesmo estando do lado do fundo, do outro lado tem alguém vivendo aquele negócio 24 horas por dia. Respeitar o tempo das pessoas, o processo e o esforço dos empreendedores. O venture capital é um business relacional e desde cedo me passaram a visão de como você se comporta, as coisas que você diz, as coisas que você não diz — tudo isso contribui para você fazer um bom trabalho.
Quando eu era júnior, um dos sócios da ACE me disse: "Você precisa aprender — e aprender rápido." E acho que pro nosso trabalho é importante estar aprendendo o tempo todo, ler muito, ouvir podcasts e conversar com muita gente.
Rafael: Você já esteve em fundos de VC tradicionais e também em Corporate Venture Capital. Fale um pouco dessa experiência e qual foi o maior aprendizado que essa experiência em CVC te trouxe?
Luiz: Na ACE, uma coisa que adorei foi ter contato com um portfólio extenso, onde tive oportunidade de acompanhar empresas em diversos estágios. Ajudei founders do portfólio no exit, na captação de rodada e até a fechar empresa. Isso me deu muita exposição. O que mais me motivou a fazer a transição na época foi a busca por uma pluralidade de vivências, porque eu via o quanto aquilo adicionava nas discussões. Eu queria ver como uma grande empresa realmente traduz o discurso de inovação na prática. Como ela pode — ou não — incorporar inovação.
Claro que o CVC tem seus desafios, mas vi de perto como um CVC bem estruturado pode ser um ganha-ganha. Vi o quanto um nome de peso como a Renner tem a capacidade de ajudar várias das empresas que a gente investiu. A corporação ganha com inovação aplicada, e a startup com acesso a clientes, reputação e estrutura.
Acho que no final essa experiência me deu muita musculatura. Saio mais completo. Hoje, em uma conversa com um founder, consigo colocar o chapéu tanto do VC quanto de um gestor de uma corporate, em como grandes empresas pensam — e isso ajuda muito.
Rafael: Como foi o processo que te levou a decidir fazer um MBA? O que você espera que essa experiência te proporcione (pessoalmente e profissionalmente)?
Luiz: A ideia de fazer um MBA surgiu a partir de algo que sempre esteve presente na minha trajetória: o poder das redes. Para mim, rede é sobre conexões — pessoas que se ajudam, trocam e se influenciam mutuamente ao longo do tempo. Foi por meio dessas redes que entrei na empresa júnior, fui parar na ACE, co-fundei o Emerging e criei a Exit in Public. Em todas essas experiências, a rede abriu portas, provocou decisões e me expôs a pessoas e ideias que transformaram meu caminho.
O MBA surgiu como uma nova rede a explorar. Longe de ser uma coisa necessária, mas a minha aposta é conhecer gente muito boa e romper esta bolha de conhecer pessoas que talvez em nenhum outro contexto eu conheceria na profundidade que imagino conhecer durante o programa.
Mais pro lado profissional, estar próximo de um mercado onde a indústria de Venture Capital está em outro nível de maturidade é algo que me interessa bastante.
Rafael: Conta um pouco sobre o processo de application?
Luiz: É um processo longo — leva pelo menos um ano. Primeiro, é preciso fazer duas provas principais: o GMAT ou GRE (que avaliam raciocínio lógico, análise de dados e inglês) e um exame de proficiência, como o TOEFL. Depois disso, vem a etapa de escolher as escolas: cada uma tem um DNA próprio, e não basta você achar que combina com ela — a escola também precisa ver valor no que você traz.
Com essa escolha feita, começa a produção dos materiais. Cada escola vai pedir essays, vídeos ou outros formatos em que você mostre quem é, como pensa e o que te motiva. É um processo que exige muita autorreflexão: olhar para dentro e entender o que é importante pra você, o que não está disposto a abrir mão, o que quer construir. Além disso, você precisa enviar um currículo adaptado ao modelo deles, com foco em impacto e resultado, e reunir cartas de recomendação de pessoas que trabalharam diretamente com você.
Por fim, há as entrevistas — alguém da escola analisa todo o seu material e te desafia com perguntas profundas para entender seus porquês. Com tudo isso em mãos, a decisão final da escola é enviada. Um processo exigente, mas muito valioso.
Rafael: Por que Harvard?
Luiz: Harvard tem uma densidade de pessoas incríveis que é difícil de encontrar em outro lugar. Seja pela produção científica, pelos empreendedores e investidores formados por lá, ou pela profundidade das discussões. A escola te expõe a muita gente interessante e a ideias que te desafiam.
Rafael: Qual sua visão sobre o mercado de Venture Capital nos próximos anos?
Luiz: Estou muito curioso para ver essa próxima geração liderando os fundos. Já vejo alguns fellows virando sócios, montando casas, assumindo mais protagonismo. Tenho convicção de que essa nova leva de sócios vai fazer diferente — com mais diversidade de experiências e uma visão mais ampla do que é gerar valor. Esse é o tipo de futuro que me motiva a continuar construindo o Emerging.
Rafael: Para finalizar: qual mensagem você gostaria de deixar para os fellows?
Luiz: Quanto mais você se doa de forma genuína para a comunidade, mais retorno isso tende a gerar. Pode não ser imediato — e nem deve ser essa a intenção —, mas as conexões criadas com profundidade acabam voltando de formas surpreendentes. Eu sou prova disso. As pessoas que conheci no Emerging abriram portas e inspiraram decisões que mudaram a minha vida.