
April 14, 2025
By Thiago Favero, EVCF Fellow
“Hoje, mesmo com menos liquidez, vejo um ecossistema mais maduro. Os empreendedores estão mais determinados e conscientes. Temos mais infraestrutura de tecnologia, mais talentos, mais exemplos de saídas e mais gente preparada”
Mitsuru Nakayama é fundador da B Venture Capital, gestora com atuação na América Latina e base no Brasil. Nascido no Japão, Mitsuru tem uma trajetória que combina experiência como empreendedor, consultor e investidor. Ao longo desta entrevista, ele compartilha como sua vivência internacional moldou a tese da BVC, reflete sobre os ciclos do mercado de startups e traz sua visão sobre o futuro do ecossistema latino-americano.
Mitsuru: Desde jovem, sempre tive vontade de empreender. Ainda na adolescência, organizei pequenos negócios de importação nos arredores de Tóquio. Após a faculdade, comecei minha carreira na Bain & Company no Japão, mas pouco depois co-fundei uma startup focada em aluguel de móveis para consumidores finais. Crescemos rápido, mas fomos duramente impactados pela crise de 2008. Precisei reestruturar a empresa, fechar lojas e reduzir operação para sobreviver.
Ao final desse ciclo, decidi fazer um MBA na Espanha e repensar meus próximos passos. Aos 35 anos, escolhi sair do Japão e buscar uma nova experiência profissional. A América Latina me chamou atenção justamente por não ter muitos japoneses e por ser uma região com grande potencial. Cheguei ao Brasil em 2012 e, depois de um período de reestruturação financeira pessoal, começamos a desenhar a BVC em 2014, num momento em que o ecossistema ainda estava em formação.
Naquela época, existiam poucos fundos ativos e o acesso a capital era limitado. Havia aceleradoras apoiadas por programas do governo, mas sem continuidade no investimento. Vi um espaço claro para uma gestora que olhasse com mais profundidade para estágios iniciais. Com base na experiência que tive no Japão, decidimos fundar o primeiro fundo com um grupo pequeno de sócios e começamos a investir.
Mitsuru: O mercado de venture capital é cíclico. Esses momentos de hype e de contração acontecem de tempos em tempos. Para a gente, a base continua sendo resolver problemas reais. Se o problema é grande e o empreendedor entrega uma solução consistente, o valor aparece, independente do ciclo.
Tive experiências difíceis como empreendedor, tanto por falta quanto por excesso de capital. Levantamos rodadas grandes, mas gastamos mal e nos diluímos demais. Por isso, na BVC, sempre tivemos um olhar mais disciplinado sobre capital. O dinheiro não é o objetivo, é o meio. Durante o auge, vimos muitas startups captando sem ter ainda uma estrutura capaz de sustentar crescimento com eficiência. Ao mesmo tempo, muita gente ganhou experiência nesse período. Aprenderam sobre execução, sobre testar antes de escalar, sobre construir com base em dados.
Hoje, mesmo com menos liquidez, vejo um ecossistema mais maduro. Os empreendedores estão mais determinados e conscientes. Temos mais infraestrutura de tecnologia, mais talentos, mais exemplos de saídas e mais gente preparada. Comparando com 2014, estamos em outro patamar. Por isso, 2024 e 2025 devem ser anos de boas oportunidades.
Mitsuru: Cada ecossistema tem seu jeito. O Japão tem uma cultura empresarial muito específica, com forte ênfase em disciplina, execução e estrutura comercial. Lá, mesmo empresas pequenas investem em processos bem definidos e força de vendas ativa. Visitar clientes diariamente, seguir uma cadência rigorosa e estar próximo do mercado é algo comum.
Na América Latina, especialmente no Brasil, vejo menos presença dessa cultura de vendas estruturada. Muitos empreendedores são muito bons em produto, mas ainda deixam a construção da máquina de vendas para depois. Em SaaS B2B, isso pode comprometer o crescimento. A capacidade de gerar receita de forma consistente precisa ser construída desde o início.
Outra diferença marcante é a velocidade de adoção tecnológica. No Japão, novas tecnologias demoram mais para serem adotadas, mas quando são, a execução costuma ser extremamente técnica. Aqui na América Latina, há mais abertura para testar soluções novas, especialmente se forem simples e resolvam um problema concreto. Essa agilidade cria espaço para inovação com base em necessidade prática, não só sofisticação técnica.
Também vejo que, por aqui, há menos estrutura de capital nas fases mais iniciais, o que exige dos fundadores uma capacidade maior de adaptação e criatividade. Isso torna o ambiente mais desafiador, mas também mais dinâmico. São contextos diferentes, mas que ensinam muito — tanto para empreendedores quanto para investidores.
Mitsuru: A BVC tem equipes no Brasil, Colômbia e Peru. Investimos principalmente no Brasil, mas temos posições em outros países como Equador e Argentina. A Colômbia tem se destacado bastante. Estamos vendo surgir os primeiros “exits” relevantes por lá, o que é essencial para consolidar um ecossistema. Casos como PagSeguro e Stone ajudaram o Brasil a atrair capital e criar uma nova geração de founders. A Colômbia parece estar nesse estágio agora.
Peru ainda está um pouco mais atrasado, e o México segue uma lógica mais conectada com investidores americanos. Chile e Argentina têm ecossistemas maduros, com bastante experiência acumulada. Continuamos focando no Brasil, mas aproveitando movimentos positivos em outros mercados. Muitas vezes usamos o Brasil como referência para antecipar o que pode acontecer em outros países.
Misturu: Nosso foco principal está em fintechs e B2B SaaS. Ainda vejo muito espaço em crédito, especialmente quando conseguimos encontrar segmentos pouco atendidos, com bom equilíbrio entre risco e retorno. O sistema financeiro no Brasil ainda é ineficiente em várias camadas. Bancos tradicionais têm estruturas de custo altas e operam com cobrança fraca. Isso abre espaço para novos modelos, desde que bem executados.
No SaaS B2B, buscamos empreendedores que tenham compreensão profunda do problema que estão resolvendo. Mais do que tecnologia, olhamos para a capacidade de vender. Um bom produto sem base de clientes não gera resultado. Por isso, acompanhamos de perto como o time constrói sua força de vendas, como valida canal, como prioriza features com base em uso real. Essa mentalidade comercial ainda é pouco difundida, mas faz toda a diferença.
Mitsuru: Tenho um KPI pessoal que é aumentar o número de japoneses que visitam a América Latina. Sempre quis atuar como ponte entre essas duas regiões. São mercados com muito potencial e que ainda se conhecem pouco. Qualquer contribuição que eu possa dar nessa direção já me deixa realizado.
Em relação à BVC, nosso sonho é seguir como uma gestora independente, nascida do empreendedorismo, e apoiar o surgimento de novas gestoras no Brasil. Em algum momento, queremos ajudar a formar novos GPs, investir em mini fundos, multiplicar a capacidade do ecossistema. Se conseguirmos passar por todo esse ciclo e ainda fomentar uma nova geração de gestores, já valeu a jornada.