August 18, 2025

Fellows Spotlight: Pedro Dias, Co-Founder & Managing Partner na Canastra Ventures

By Rafael Arakaki, EVCF Fellow

“Pra quem vem acompanhando esse tema há uma década, não é hype — é maturação. A IA está gerando valor real. O que precisa é cuidado com valuation e aplicação prática. No Brasil, estamos num momento único: temos acesso simultâneo às mesmas tecnologias dos EUA, mas sem a abundância de capital — o que nos dá uma janela excelente para investir bem.”

Pedro Dias é cofundador da Canastra Ventures, um fundo pre-seed focado em inteligência artificial no Brasil. Engenheiro de formação, Pedro construiu uma trajetória que passa por pesquisa acadêmica, vendas complexas de SaaS B2B, venture building e atuação em grandes corporações — até encontrar no venture capital um caminho que combina seu lado técnico com sua paixão por inovação. Na conversa a seguir, ele compartilha aprendizados e bastidores da construção da Canastra Ventures, trazendo uma visão única sobre o futuro do ecossistema de IA na América Latina.


Rafael: Você tem uma trajetória bem diversa. O que mais te marcou em cada uma dessas fases que te preparou para estar à frente da Canastra Ventures atualmente?

Pedro: Desde cedo, fui muito movido pela curiosidade. Ganhei meu primeiro computador com 10 anos e, com 14, já explorava formas de fazer negócios na internet. Essa inquietação intelectual me levou a estudar Engenharia Química, onde desenvolvi um raciocínio analítico estruturado, e depois migrei para Estatística Aplicada, com o desejo de entender fenômenos complexos com base em dados. Foi nesse período que conheci grandes nomes da IA no Brasil, como o Nívio Ziviani e o Claudionor Coelho Jr, que me mostraram como era possível unir profundidade acadêmica e impacto prático.

Cada etapa da minha trajetória foi decisiva. A vivência acadêmica consolidou minha base técnica e me ensinou a valorizar os fundamentos. Nas startups de deep learning, enfrentei os desafios reais da aplicação de IA no mundo corporativo — desde a falta de dados estruturados até a dificuldade em transformar tecnologia em produto. Na Siemens, liderando a Digital Factory, aprendi a escalar: transformar soluções sob medida em produtos globais, operando com autonomia e lidando diretamente com o board. Isso me deu uma visão clara de go-to-market, estratégia e construção de soluções com tração.

Foi a partir dessa bagagem que surgiu o desejo de atuar no Venture Capital. A experiência na DOMO.VC me permitiu atuar com fundraising, análise de oportunidades e acompanhar de perto o processo de investimento em startups no early stage. Essa vivência despertou em mim o desejo de encontrar um caminho onde eu pudesse somar minha bagagem técnica à vontade de ajudar a construir negócios com impacto real.

A Canastra Ventures nasceu exatamente dessa percepção: de que dá para construir um fundo com DNA técnico, com capacidade real de apoiar os fundadores desde o primeiro dia. Um fundo que não apenas aporta capital, mas também contribui ativamente na definição da estratégia e na jornada de construção de produto.


Rafael: Se pudesse voltar para o início da sua carreira, qual conselho daria pra si mesmo? E qual foi o feedback mais marcante que recebeu até hoje?

Pedro: O maior conselho seria: seja intelectualmente humilde. No início da carreira, é muito fácil querer provar valor rápido — mas os melhores aprendizados vêm de observar, absorver e fazer perguntas certas. Ser uma esponja é o que mais acelera o desenvolvimento. Outro ponto que considero fundamental é escolher bem com quem trabalhar. Meus maiores saltos profissionais vieram quando estive cercado de pessoas melhores do que eu em diferentes aspectos. Aprendi demais só por estar perto dessas pessoas.

O feedback mais marcante? Que eu precisava ser mais coachable. Às vezes a gente se apega demais às próprias convicções e deixa de escutar. Isso trava o crescimento. Quando passei a ouvir mais — não só elogios, mas também críticas — minha curva de aprendizado mudou completamente. Inclusive, aprendi que saber receber crítica é uma das competências mais valiosas que um founder ou investidor pode desenvolver.


Rafael: O mercado de IA está em um momento de euforia. Estamos vivendo uma bolha ou um novo paradigma? E como a Canastra Ventures tem se posicionado?

Pedro: Pra quem vem acompanhando esse tema há uma década, não é hype — é maturação. A IA está gerando valor real. O que precisa é cuidado com valuation e aplicação prática. No Brasil, estamos num momento único: temos acesso simultâneo às mesmas tecnologias dos EUA, mas sem a abundância de capital — o que nos dá uma janela excelente para investir bem.

A Canastra Ventures foca no pre-seed justamente por isso: queremos chegar antes, atrair talentos, moldar bons negócios desde cedo. E como diferencial, entregamos valor pré e pós-investimento, com um programa de residência, para apoiar os founders na validação das teses de IA, e uma estrutura de Venture Partners, que são nossos “Gurus de IA”. Somos a casa com maior número de sócios experts em IA no mercado para garantir boa escolhas dos investimentos e value-add ao portfólio.


Rafael: Quais são os principais sinais de maturidade e também de imaturidade que você observa nos founders e startups focados em IA?

Pedro: Estamos vendo uma geração de founders mais técnica, com CTOs assumindo o papel de CEO, engenheiros com experiência prática liderando empresas. Isso é extremamente positivo para o ecossistema, porque eleva o nível de profundidade técnica das soluções desde o início.

Um ponto que a gente observa com frequência é o desafio na formação do time fundador. Na Canastra Ventures, acreditamos que a combinação ideal está em um time complementar — a tríade produtor, engenheiro e cientista de IA. Ter um fundador apenas com background de negócios, ou só técnico, costuma não ser suficiente para construir uma empresa de AI com diferencial competitivo e capacidade de execução. Por isso, temos como premissa investir em times com ao menos dois cofundadores, sendo com o background técnico, normalmente na cadeira de CTO. É nesse equilíbrio entre domínio técnico profundo e capacidade de construção de produto que vemos as maiores chances de sucesso no estágio pre-seed.


Rafael: Quais os maiores benefícios que você enxerga em construir uma comunidade forte desde o início de uma gestora?

Pedro: A construção da comunidade da Canastra Ventures é estratégica e acreditamos em pessoas com perfis complementares, feita de forma intencional para gerar valor prático. Hoje, contamos com cerca de 160 founders ativos em rede, com expertise que se distribui entre engenharia, ciência de dados e produto.

Um dos maiores diferenciais da Canastra Ventures está nos Fellow Partners — empreendedores com trajetória sólida que se tornam sócios da gestora e atuam como mentores dos founders. Eles não estão ali apenas para dar conselhos pontuais, mas para participar da jornada com profundidade, sendo referência e apoio em temas essencialmente de negócio.

Empreender é, muitas vezes, uma jornada solitária. Por isso, construir uma comunidade onde o founder sabe que pode contar com gente que entende seus dilemas e está disposta a se envolver de verdade, com escuta ativa e postura hands-on, tem se mostrado um fator decisivo. A comunidade não é só uma rede — é parte da proposta de valor central da casa.


Rafael: Para finalizar: qual mensagem você gostaria de deixar para a nossa comunidade de fellows?

Pedro: Muita gente diz que quem deve inovar é o founder, não o investidor. Eu discordo. É papel do VC inovar também. A Canastra Ventures é uma startup. Estamos tentando fazer diferente — e ouvimos o tempo todo que não vai dar certo.

Mas é justamente nos momentos difíceis que surgem as melhores ideias. Então, para quem está começando no VC, minha provocação é: não siga só o playbook. Crie o seu. E, se possível, faça isso com profundidade, técnica e ambição. O mercado precisa de investidores inovadores.