
September 29, 2025
By Rafael Arakaki, EVCF Fellow
“A principal mudança do novo modelo é clareza e foco. Com perfis mais alinhados em cada trilha, o conteúdo, as discussões e os encontros presenciais (jantares, cafés, sessões com convidados) ficam mais assertivos e de maior qualidade”
Renato Pavan construiu sua carreira a partir de diferentes ângulos do mercado financeiro, com passagens pelo Credit Suisse, Constellation e KPTL e, há quase quatro anos, atua na Península. No Emerging, Renato está desde o início como fellow e há 9 meses passou a integrar como board member do EVCF. Nesta conversa, Renato compartilha sua trajetória, do valor de mentores — e abre os bastidores da criação do novo modelo do EVCF.
Rafael: Renato, se puder contar um pouco da sua trajetória. E como nasceu a vontade de trabalhar com investimento em tecnologia?
Renato: Nasci em São Paulo, cresci em Brasília e voltei para São Paulo aos 16. Entrei na FEA-USP e comecei a trabalhar muito cedo no mercado financeiro: primeiro no Credit Suisse (sell side) e depois na Constellation (buy side). O trabalho era parecido mas com papéis diferentes.
Na Constellation, enquanto o Brasil ainda tinha pouquíssimas empresas de tecnologia listadas, já era claro que, lá fora, tech dominava. Eu me interessava menos se a margem seria 22% ou 24% e mais por como aquelas empresas nasceram e se tornaram gigantes — e, também, como poderiam ser disruptadas. Em 2017, o VC ainda engatinhava por aqui. Decidi seguir essa “pulga atrás da orelha” e migrei para a então A5 Capital Partners (que depois veio a se tornar KPTL). Foi uma jornada quase empreendedora: o time cresceu, o portfólio saltou de ~10 para ~60 empresas (parte via M&A de gestora), e onde eu pude participar diretamente de 12–14 deals, além de atuar em conselhos e na criação de valor pós-investimento.
Em 2022, vim para a Península. Começamos com investimentos diretos em tech/VC e, mais recentemente, como parte da transição geracional, estamos migrando para alocações via gestores. Em paralelo, mantenho meu envolvimento no Emerging, hoje como board member.
Rafael: Você passou por asset, research, VC e PE, sob perspectivas diferentes do mercado financeiro. O que isso te trouxe de mais valioso e que te permitiu ser o profissional de hoje?
Renato: O que mais carrego é a racionalidade de investidor: no fim do dia, todo mundo sonha com IPO, mas quando (e se) chegar lá, o julgamento é pelo fluxo de caixa. Esse pé-no-chão ajuda a não se apaixonar somente por narrativa. Valorizar economics, disciplina de preço, entender o que sustenta o negócio no longo prazo — isso vem muito do mercado financeiro. Claro que cada trajetória traz suas próprias lacunas. Quem viveu operação em startups tem uma bagagem prática diferente; quem veio de consultoria traz outra lente de análise; e o mercado financeiro oferece a racionalidade do investidor. No meu caso, essa formação deu base analítica e disciplina de avaliação, mas precisei complementar com outras perspectivas.
Rafael: Se pudesse voltar ao início da carreira, que conselho daria? E qual foi o feedback mais marcante que recebeu?
Renato: Eu buscaria mais mentores, mais cedo. Tomamos decisões muito jovens — elas moldam a vida — e ter gente boa por perto muda a qualidade das escolhas. Quanto ao feedback, o que mais ficou foi: “cerque-se de pessoas excelentes.” Quando você trabalha com gente muito boa, a curva de aprendizado acelera. É o que se vê nos “efeitos-rede” de times históricos — em tech, mercados financeiros, venture. A densidade de talento puxa você para cima.
Rafael: O Emerging está entrando numa nova fase. O que motivou a mudança e quais são os pilares do novo modelo?
Renato: A comunidade cresceu muito — o que é ótimo —, mas ao mesmo tempo ficou mais difícil gerar valor igualmente para perfis muito distintos. O novo modelo nasce dessa dor e se organiza em três frentes principais. A primeira é o conhecimento, estruturando melhor as trilhas para cada etapa da carreira, começando pequeno, mas com a ambição de evoluir para percursos como o de analista, associate ou principal. A segunda frente é a conexão, promovendo interações entre grupos mais homogêneos em desafios e senioridade, o que torna as trocas mais profundas e relevantes. E a terceira é a inspiração, trazendo referências de mercado que possam elevar a barra das discussões e criar momentos de alto impacto.
Nos bastidores, decidimos reduzir burocracia e operar como startup: um núcleo enxuto, muito engajado, iterando rápido. Contamos com advisors (como a Natasha Funk e Rodrigo Baer entre outros conselheiros) para refinar trilhas e conteúdos com pragmatismo.
Rafael: Qual o impacto esperado para fellows atuais e para quem quer se engajar? O que muda na prática?
Renato: A principal mudança do novo modelo é clareza e foco. Com perfis mais alinhados em cada trilha, o conteúdo, as discussões e os encontros presenciais (jantares, cafés, sessões com convidados) ficam mais assertivos e de maior qualidade. A experiência melhora porque as conversas partem de desafios parecidos. Também existe um componente de sustentabilidade do modelo (inclusive via mensalidade), para viabilizar eventos à altura do que a comunidade quer viver.
Rafael: Qual foi o maior aprendizado no redesenho?
Renato: Que menos é mais. A primeira coisa que a gente viu foi que precisamos cortar burocracias e a virar mais uma startup. Então, vamos fazer um negócio com menos pessoas e com pessoas muito engajadas. Precisamos atuar como jet ski: testar, ouvir, pivotar rápido e fazer os ajustes rápidos para chegar no melhor nível possível. O desenho inicial é só o começo; o compromisso é aprimorar continuamente a partir da experiência.
Rafael: Como um dos fellows mais antigos, o que o Emerging trouxe de mais positivo para você? E como programas assim ajudam a formar a próxima geração de investidores?
Renato: O Emerging me conectou com gente muito boa, abriu portas para discussões e eventos de alto nível e criou amizades. Para o ecossistema, programas assim aumentam a densidade de rede, aceleram a aprendizagem coletiva e consolidam uma cultura de give back — que é o que faz qualquer comunidade evoluir.
Rafael: Para finalizar, que mensagem você deixaria para a comunidade de fellows?
Renato: Apostem no novo modelo. Participem, testem neste primeiro trimestre, mandem feedback. A construção é coletiva e estamos preparados para ajustar rápido a partir do que funciona melhor para vocês.